terça-feira, 10 de junho de 2014

Durante a partida entre Villareal e Barcelona no dia 27 de abril, válida pelo campeonato espanhol, o lateral do time catalão e da Seleção Brasileira, Daniel Alves, se preparava para bater um escanteio quando um torcedor da equipe da casa atirou uma banana ao campo do estádio El Madrigal.

Daniel comeu a fruta e continuou a jogada. Após o jogo, Neymar, colega de Barça e Seleção, publicou em suas redes sociais uma foto sua e de seu filho com uma banana e a hashtag #somostodosmacacos. Mais de 150 mil pessoas – anônimas e famosas – publicaram a hashtag. O que quase ninguém sabia era que a campanha, iniciada pelo ex-jogador do Santos, que recentemente também foi vítima de preconceito na Espanha, havia sido criada por uma agência de publicidade, a Loducca. Não demorou para que milhares de pessoas criticassem a ação por explorar um tema tão delicado.


A agência, que tem cerca de 200 profissionais e clientes, como Odebrecht, Ambev e Pepsico, se defendeu. "Neymar é excelente jogador de futebol, mas não é publicitário. Assim como o Obama é excelente político, mas não escreve seu discurso. Qual é o problema de um jogador ter ajuda de um profissional que consiga ampliar sua voz?", declarou Guga Ketzer, vice-presidente de criação da Loducca, em entrevista à BBC Brasil.

A situação dividiu opiniões. “Quando isso envolve uma agência, eu não vou condenar, mas o impacto todo foi para o espaço. Para mim, perdeu totalmente o valor”, disse Mauro Cezar Pereira, comentarista dos canais ESPN. Já para André Rizek, apresentador do SporTV, “a repercussão fez todo mundo refletir sobre o tema. Inclusive sobre uma suposta falta de espontaneidade do Neymar (eu disse suposta...), pelo fato de o vídeo divulgado por ele ter sido encomendado a uma agência de publicidade”.

Apesar de o ato racista ter acontecido na Espanha, o assunto tem sido recorrente em gramados brasileiros. Dois casos recentes tiveram destaque. Em jogo válido pela Copa Libertadores contra a equipe peruana do Real Garcilaso, em 12 de fevereiro, o jogador do Cruzeiro, Tinga, foi hostilizado por torcedores que imitavam sons de macacos toda vez que o jogador tocava na bola. No Rio Grande do Sul, o árbitro Márcio Chagas foi alvo da torcida do Esportivo de Bento Gonçalves, que não só depredou seu carro após o jogo contra o Veranópolis, no início de março, pelo Campeonato Gaúcho, como deixou bananas sobre o veículo.


Atenta aos casos, a presidente da República, Dilma Rousseff, recebeu os dois em seu gabinete em Brasília, em 13 de abril. Por meio de sua conta no Twitter, Dilma disse que é "inadmissível" que o Brasil, maior nação negra fora da África, ainda conviva com cenas de racismo. Já a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lançou uma campanha contra o racismo intitulada “Somos iguais”. "O objetivo da campanha é a conscientização e o repúdio sobre qualquer ato de preconceito, seja racial, econômico, religioso, social, sexual, dentre outros", disse a entidade.
“Se há uma coisa boa nessa onda de casos de racismo no esporte sendo divulgados é que isso mobilizou as autoridades como nunca antes na história desse país [risos]”, alfinetou Rizek. Na visão de Marcel Diego Tonini, doutorando em História Social pela USP, ainda não é o suficiente: “Se formos esperar alguma ação das autoridades, ficaremos como estamos, ou seja, com campanhas inócuas”.

No campo das punições a quem pratica esses atos, o cenário é desanimador. Embora o racismo seja um crime inafiançável, na Justiça Desportiva, as penas costumam ser brandas. No caso do ex-árbitro – Chagas se aposentou após o campeonato e virou comentarista de arbitragem na RBS TV –, o Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Rio Grande do Sul decidiu, no dia 10 de abril, punir o Esportivo com a perda de oito pontos na competição. Assim, o clube de Bento Gonçalves foi rebaixado para a segunda divisão.

Tinga não teve a mesma sorte com a Conmebol – que organiza a Libertadores. Em 24 de março, a entidade máxima do futebol sul-americano aplicou uma multa de US$ 12 mil (o equivalente a R$ 28 mil) ao Real Garcilaso e o avisou que, caso os atos racistas se repitam, o estádio do clube será interditado. Antes disso, o número 2 da entidade declarou que o jogador brasileiro não teria sofrido racismo. "Um moreno peruano imitando macaco para um brasileiro um pouco mais escuro que ele não é uma discriminação racial. É sim uma provocação mal-educada".

Fato corriqueiro

A situação não é diferente na Espanha, onde teve origem a manifestação contra Daniel Alves. De acordo com o jornalista brasileiro radicado em Barcelona, João Henrique Marques, o racismo é comum por lá. “Isso aqui é extremamente comum. Diria que, em todos os jogos, o Daniel e o Neymar ouvem gritos de macaco. Contra o Real Madrid na final da Copa do Rei, se ouvia até fora do estádio”.

Apesar disso, a polícia espanhola prendeu o torcedor do Villarreal que atirou a banana no fim de abril. O rapaz, que era funcionário do clube espanhol e acabou demitido, prestou depoimento e pagou fiança. O gesto, entretanto, foi enquadrado no Artigo 510 do Código Penal espanhol, que diz respeito à promoção de discriminação, ódio ou violência contra grupos ou associações por motivos racistas. O caso seguirá ainda para julgamento e há a possibilidade de ser arquivado.

No dia seguinte, foi iniciada uma campanha contra o “linchamento” do torcedor. Questionado sobre o racismo na sociedade espanhola, Marques disse: “A defesa deles é de que são atos do futebol que não são aplicados no dia a dia, que é uma coisa impensada, provocativa, espontânea”. Para Tonini, esse aumento na exposição dos casos de racismo nos estádios advém do fato de que “tanto os negros estão denunciando quanto a imprensa está noticiando mais”. “Será que o número de boletins de ocorrência no país aumentou com relação ao racismo?”, questiona Mauro Cezar.

De acordo com dados da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, nos últimos três anos, 1.057 denúncias de racismo e discriminação racial foram recebidas pela Ouvidoria. No ano de 2014, em relação ao primeiro trimestre, foram 51.

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